Uma encomenda de 39,90 € parece uma boa encomenda. O produto custou 12 € à loja e sobram quase 28 €. Depois chega o fim do mês, a conta bancária conta outra história e ninguém percebe onde ficou o dinheiro. Não ficou num sítio só: ficou em nove ou dez sítios, cada um demasiado pequeno para dar nas vistas. Vamos abrir essa encomenda linha a linha, até ao euro que sobra mesmo.
A encomenda de 39,90 €, aberta ao meio
O exemplo é o mesmo de toda esta série: um produto que custa 12 € à loja e vende a 39,90 € com IVA a 23%. A loja está no plano Basic, recebe em cartão, oferece portes no continente e tem 5% de devoluções. As taxas e portes são os publicados à data de setembro de 2026.
| Rubrica | Valor | Resta |
|---|---|---|
| Preço de venda ao público (com IVA) | 39,90 € | 39,90 € |
| IVA a 23% entregue ao Estado | 7,46 € | 32,44 € |
| Custo do produto | 12,00 € | 20,44 € |
| Taxa de pagamento (cartão, Basic, 1,8% + 0,30 €) | 1,02 € | 19,42 € |
| Embalagem e material de proteção | 0,80 € | 18,62 € |
| Portes suportados pela loja | 4,50 € | 14,12 € |
| Provisão para devoluções (5% de 13,82 €) | 0,69 € | 13,43 € |
| Plataforma e apps por encomenda | 0,71 € | 12,72 € |
| Tempo de pessoas (6 minutos por encomenda) | 0,90 € | 11,82 € |
| Custo de aquisição médio | 4,00 € | 7,82 € |
| Margem líquida por encomenda | 7,82 € | 24% do valor sem IVA |
A margem bruta desta encomenda é de 20,44 €, ou seja 63% do valor sem IVA. A que sobra no fim é de 7,82 €, ou seja 24%. Entre as duas percentagens desaparecem 12,62 € por encomenda, e nenhum deles aparece na fatura do fornecedor. Se os conceitos ainda soam parecidos, comece por as três margens que decidem o lucro de uma loja. Para refazer esta tabela com os seus valores, a calculadora de margem e preço de venda devolve a mesma decomposição em segundos.
Taxas de pagamento: pequenas, mas em todas as encomendas
No plano Basic, o Shopify Payments cobra 1,8% + 0,30 € nos cartões e 1,3% + 0,30 € no MB WAY. Nos 39,90 € do exemplo são 1,02 € em cartão e 0,82 € em MB WAY. Parece indiferente, mas com 200 encomendas por mês a diferença anual passa dos 480 €. A parcela fixa de 0,30 € é a parte traiçoeira: numa encomenda de 15 €, vale sozinha 2% do preço.
O erro mais caro está noutro sítio. Quando uma encomenda é paga por um gateway externo, a Shopify acrescenta uma taxa de transação: 2% no Basic, 1% no Grow e 0,6% no Advanced. Nos 39,90 € são mais 0,80 € que ninguém contava, e que costumam apagar a poupança de comissões que motivou a mudança. A comparação completa está no artigo sobre Shopify Payments, MB WAY, Multibanco e ifthenpay, e a página Sobre o Shopify tem o que cada plano inclui e cobra.
Portes reais contra portes cobrados
Os CTT publicam, para lojas online, 3,07 € até 1 kg e 3,17 € até 2 kg ao domicílio no continente, ou 2,87 € e 2,97 € em ponto de entrega, valores a que acresce IVA. Com IVA e sobretaxa de combustível, uma encomenda normal fica nos 4 € a 4,50 €, e é por isso que o exemplo usa 4,50 €. Com DPD, GLS ou Nacex o intervalo é semelhante, entre 3 € e 6 €, conforme o contrato e o volume.
As ilhas são outro campeonato. A mesma tabela dos CTT põe a encomenda até 2 kg para os Açores e a Madeira em 15,51 €, quase cinco vezes o preço do continente. Uma loja que anuncia portes grátis para todo o país e não separa as ilhas na tabela de envios vende ao Funchal com prejuízo em cada encomenda, e nem percebe porquê, porque o total mensal continua a crescer. A separação faz-se em zonas de envio distintas, como explicamos no guia de transportadoras e etiquetas no Shopify em Portugal.
Embalagem: 0,80 € que crescem sem se dar por isso
Caixa, fita, papel de proteção e etiqueta. Uma embalagem simples fica entre 0,30 € e 0,60 €; uma cuidada, com caixa impressa e papel de seda, sobe para 1,50 € ou 2 €. O exemplo usa 0,80 €.
O problema raramente é o preço da caixa. É a compra em quantidades pequenas, é a caixa grande usada para um produto pequeno porque acabou o tamanho certo, e é o volume que faz subir o escalão de portes. Uma marca como a d’Agonia, que envia peças frágeis, tem razões para investir na proteção; uma loja de suplementos que embala como se fosse joalharia não tem.
Devoluções: o custo real não é o produto
Uma devolução não custa zero só porque o produto volta ao stock em bom estado. Custa tudo o que já foi gasto e não volta.
| Rubrica | Custo | Quando muda |
|---|---|---|
| Portes da ida, já pagos | 4,50 € | Menor se o cliente tiver pago os portes |
| Portes do retorno | 4,50 € | Zero se a devolução for a cargo do cliente |
| Embalagem perdida | 0,80 € | Menor se o artigo voltar embalado |
| Receção, conferência e reposição (20 minutos) | 3,00 € | Sobe se for preciso limpar ou reembalar |
| Taxa de pagamento não devolvida | 1,02 € | Depende do método e do painel da loja |
| Total por devolução | 13,82 € | Sem contar com perda de valor do artigo |
Com 13,82 € por devolução e uma taxa de 5%, cada encomenda suporta 0,69 € de provisão. Com 8%, sobe para 1,11 €. Na moda, onde o normal anda entre 15% e 25%, passa dos 2 €, e o Relatório de E-Commerce dos CTT chegou a apontar 31,8% de devoluções no setor em Portugal. A esse nível, quase 4 € de cada encomenda existem só para pagar as que voltam. É por isso que fichas de produto detalhadas, tabelas de tamanhos honestas e boas fotografias são investimento em margem, não em design.
Confirme uma coisa no painel da loja: nem sempre a comissão de pagamento é devolvida no reembolso. Nos pagamentos por referência Multibanco não volta, e o reembolso tem de ser feito por transferência, com o IBAN pedido ao cliente.
As encomendas que nunca chegam a ser pagas
O Multibanco por referência traz um custo que não aparece em lado nenhum: as referências que ficam por pagar. O cliente tem até sete dias, a encomenda fica pendente e cancela-se sozinha. Entretanto o stock esteve reservado e, se houve anúncio a trazer esse cliente, o custo de aquisição foi pago à mesma. A percentagem varia muito e não há número oficial, por isso vale mais medir: veja quantas encomendas por referência dos últimos três meses acabaram canceladas. Acima de 10%, dois emails de lembrete, ao segundo e ao quinto dia, recuperam boa parte delas.
A plataforma e as apps, divididas por encomenda
Um plano Basic custa 19 € por mês no pagamento anual ou 27 € no mensal. Junte três ou quatro apps a 10 € ou 15 € cada, um tema pago e a ferramenta de facturação, e chega a 60 € por mês. Com 85 encomendas mensais, são 0,71 € por encomenda. Com 25 encomendas, são 2,40 €, mais do triplo.
Este é o custo mais fácil de arrumar, porque muitas apps foram instaladas para um teste de que já ninguém se lembra. A calculadora de custos do Shopify soma plano, comissões e apps, e dividir esse total pelas encomendas do mês costuma ser desconfortável.
Aquisição: a linha que come mais margem de todas
Nesta encomenda, antes de descontar publicidade, sobram 11,82 €. É o que uma encomenda pode gastar em anúncios sem dar prejuízo, e é o teto do custo por aquisição. Traduzido em ROAS, uma encomenda de 39,90 € inteiramente trazida por publicidade precisa de cerca de 3,4 de ROAS só para empatar. Abaixo disso é vender com prejuízo, por mais bonito que esteja o painel do Meta Ads.
O exemplo usa 4 € de custo médio porque parte das encomendas vem de pesquisa, email e clientes que voltam. É aí que está a saída: quanto maior a fatia de vendas que não passa por leilão de anúncios, menor esta linha. A calculadora de ROAS devolve o mínimo para o seu caso, a cruzar com o que a calculadora no modo do preço de venda dá para a margem atual.
O tempo das pessoas, que quase ninguém conta
Separar, embalar, imprimir etiqueta, responder ao cliente que pergunta onde está a encomenda, emitir a fatura. São seis minutos numa operação afinada e quinze numa improvisada. A 9 € por hora de custo real, os seis minutos valem 0,90 € e os quinze valem 2,25 €. Com 300 encomendas por mês, a diferença são 405 € mensais.
Quem embala as próprias encomendas tende a marcar este custo como zero. Não é: é tempo que não foi para produto, fornecedores ou clientes. Contá-lo na margem é o que permite decidir quando vale a pena contratar alguém ou passar a logística para fora.
Os roubos de margem silenciosos
Há três que aparecem em quase todas as lojas que analisamos. O primeiro é o desconto permanente: o código de 10% de boas-vindas que nunca expira, ou a campanha que ficou ativa depois do Natal. Nos 39,90 € do exemplo, 10% tiram 3,99 € do preço e reduzem a margem de 7,82 € para 3,83 €. Metade do lucro por causa de um código esquecido.
O segundo são os portes grátis mal calibrados. Um limiar a 30 € numa loja com 12 € de margem de contribuição por encomenda funciona. O mesmo limiar numa loja de produtos de 20 € com 6 € de margem transforma cada encomenda em prejuízo. O limiar certo define-se a partir da margem de contribuição, não do que os outros fazem, e o critério está em como definir o preço de venda de um produto.
O terceiro é o stock parado. Mercadoria comprada há catorze meses continua a valer no inventário o que custou, mas já custou armazém, dinheiro imobilizado e a promoção de 40% precisa para a escoar. É margem perdida que ainda não foi registada.
Sete verificações mensais para proteger a margem
Não é preciso um sistema complicado. Uma hora por mês, sempre no mesmo dia, com esta lista.
- Comissões de pagamento do mês, divididas pelas vendas. Se a percentagem subiu, mudou o mix de métodos ou entrou um gateway externo.
- Portes pagos à transportadora contra portes cobrados aos clientes. A diferença é o custo real da política de envios.
- Encomendas para as ilhas: confirmar que a zona de envio está separada e a tarifa cobre o custo.
- Taxa de devoluções por categoria, não só a média da loja. É quase sempre um punhado de referências a puxar o número para cima.
- Códigos de desconto ativos: desativar os que já não deviam existir.
- Fatura das apps: cancelar as que não foram abertas no último trimestre.
- Produtos sem venda há mais de noventa dias, com decisão tomada: promoção, kit ou fim de linha.
Perguntas frequentes
Qual é o custo médio de uma devolução em Portugal?
Depende de quem paga o retorno e do valor do artigo, mas em produtos até 2 kg no continente é realista contar entre 10 € e 18 € por devolução, somando portes de ida e volta, embalagem perdida, tempo de conferência e comissões não devolvidas. Faça a conta com os valores do seu contrato de transporte, não com uma média genérica.
Vale a pena oferecer portes grátis?
Vale quando o limiar sai da margem de contribuição e quando o valor médio das encomendas sobe o suficiente para pagar o custo. Não vale quando é copiado da concorrência sem contas. A regra é simples: o limiar tem de deixar uma margem de contribuição superior ao custo do envio, com folga para as devoluções.
Como sei se estou a perder dinheiro numa encomenda?
Fazendo a decomposição desta tabela para os produtos mais vendidos e para os que têm envio mais caro. Uma volta rápida na calculadora de margem, com os seus números, mostra a barra do preço repartida por custo, taxas, portes e lucro. Para rever os conceitos por trás de cada linha, a página de conceitos e números tem as definições.
O que fazer com estes 12,62 €
A diferença entre os 63% de margem bruta e os 24% que sobram no fim não é um erro nem um azar. É o custo real de vender online, e a maior parte dele é gerível. Portes negociados com volume, um limiar de portes grátis calculado, menos devoluções, apps a menos e um método de pagamento bem escolhido chegam para recuperar dois ou três pontos de margem. Numa loja com 5 000 € de vendas mensais, três pontos são 1 800 € por ano.
Se olhar para esta tabela e não souber que valores pôr em metade das linhas, vale a pena fazer as contas com calma. Na NEXO STUDIO fazemos este exercício com lojas portuguesas todas as semanas e o resultado é quase sempre o mesmo: o problema não estava no preço, estava em três linhas que ninguém tinha medido. Fale connosco e vemos os números da sua loja.
Leitura relacionada: Margem bruta, de contribuição e líquida: as três margens que decidem o lucro, Como definir o preço de venda de um produto numa loja online, Transportadoras e Shopify em Portugal: CTT, DPD, GLS e as apps que tratam das etiquetas.
